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Por um mundo além do PIB

  • 12/02/2020
  • Carla Furtado

Esta semana o Guardian, um dos maiores grupos jornalísticos da Grã-Bretanha, informou que não aceitará mais anúncios das indústrias de energia não renovável. E foram claros quanto à razão: há anos esse setor atua com forte lobby para evitar que ações governamentais em todo o planeta sejam tomadas no sentido de conter a crise climática. Em suma, o conglomerado de comunicação está dizendo não para recursos das indústrias petrolíferas e deve puxar toda uma onda de ações do gênero.

Há alguns meses, o gigante Financial Times trouxe uma capa emblemática, amarela e apenas com uma chamada em letras garrafais ao centro: ?Capitalismo, Hora de Resetar?. Logo abaixo, numa fonte mais discreta explicou que empresas precisam lucrar e isso é inegociável, mas não poderão mais se dar ao luxo de não servir a um propósito.

Semana passada foi a vez do Goldman Sachs, banco de investimento que auxilia empresas na abertura de capital na bolsa (IPO), surpreender o mercado. Anunciou que não apoiará mais o IPO de empresas nos Estados Unidos e na Europa que tenham diretoria apenas de homens brancos heterossexuais. Eles exigirão que haja pelo menos um diretor representando uma minoria no board ? e não escondem o entusiasmo com a presença de mulheres entre os altos executivos.

Essas medidas não têm exclusivo fundo moral. Todas são, eminentemente, econômicas. Quando grandes pensadores e centros de conhecimento defendem que é necessário criar um mundo para além do PIB (nossa principal missão no Instituto Feliciência) o fazem por saber que não há economia que se sustente em meio à devastação ambiental, miséria e adoecimento psíquico. Crescer é importante, mas os novos modelos econômicos preconizam o crescimento com valores ou crescimento sustentável.Talvez toda a crise que vivemos seja a grande oportunidade de mudarmos muitas regras. E essas regras não serão mudadas apenas por quem detém o poder formal, sociedade civil e iniciativa privada deverão participar de maneira ascendente daqui em diante. Veja os estudantes nas greves climáticas ao redor do mundo e as empresas citadas acima.

A última edição do Fórum Econômico Mundial deixou claro que mais importante que prestar atenção nas falas de economistas e estadistas é acompanhar críticos do nosso tempo, como Yuval Noah Harari. O historiador ofereceu um choque de realidade frente aos desafios que batem à nossa porta. ?A inteligência artificial em breve eliminará milhões e milhões de empregos e, embora novos serão criados, não está claro se as pessoas serão capazes de aprender as novas habilidades necessárias com rapidez suficiente. Sociedades inteiras poderão se tornar redundantes?, destacou.

A pressão social sobre medidas para enfrentamento da crise climática ditará a conduta de muitas organizações que, assim como o Guardian, necessitam de sua reputação (e de um planeta!) para seguir no jogo. Goldman Sachs quer mulheres no C-level? Mas é claro, empresas com diretoras se mostraram mais rentáveis nos últimos anos. Precisamos recapacitar 1 bilhão de trabalhadores nesta década porque as atuais profissões dessas pessoas desaparecerão e isso será um problema de dimensão planetária. 

O desafio nunca foi tão grande.
As oportunidades também nunca foram tão promissoras.



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