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O Que a Economia do Bem-Estar Revela Sobre Felicidade e Trabalho

  • 20/02/2020
  • Carla Furtado

Neste início da terceira década do século 21 já podemos celebrar o amadurecimento da produção científica em torno do bem-estar e da felicidade. Fala-se muito da produção nos campos da Psicologia Positiva e da Neurociência, mas se faz igualmente importante acompanhar as investigações na economia do bem-estar. Um dos grandes nomes nesse setor é Jan-Emmanuel De Neve, da Universidade de Oxford, que utiliza Biga Data para fornecer respostas empíricas para questões que relacionam felicidade e trabalho, além de engajamento no trabalho e performance das organizações.

No que diz respeito à relação bem-estar e desemprego, o cientista é emblemático: durante o processo de busca por recolocação o indivíduo não retorna ao nível médio de bem-estar observado enquanto trabalhava. O desemprego é um fator de alto impacto na avaliação subjetiva da vida por promover significativa redução nas emoções positivas e incremento nas emoções negativas. O que De Neve e seus colegas observaram ao analisar os indivíduos se repetiu no âmbito coletivo: quanto maior a taxa de desemprego menor o índice de felicidade de uma nação.

Se o desemprego impacta o bem-estar, deveria se esperar que o emprego fosse capaz de sustentar a felicidade do trabalhador. Paradoxalmente não é. O mundo enfrenta uma queda no engajamento no trabalho ? construto este relacionado à felicidade no trabalho. Revistas como a Exame e a Você S.A deste mês talvez apontem para as razões: a primeira traz na capa o elevado índice de Burn Out no País e a segunda revela práticas abusivas no que chama de "as piores empresas para se trabalhar".

Empresas em busca de melhoria no engajamento precisam conhecer os estudos de De Neve. Em um deles, o pesquisador aponta os fatores de maior impacto no bem-estar do trabalhador e não espere ver o salário em primeiro lugar. Na liderança no ranking está um aspecto negligenciado pela maioria das companhias: relações interpessoais de qualidade. Em segundo lugar vem a legitimidade do trabalho (o quanto a atividade possui significado e é interessante) e apenas em terceiro a remuneração.

Quanto a bem-estar do trabalhador e performance da organização são muitas as pesquisas empíricas que sustentam a direta relação entre ambos, com redução de turn over, aumento da produtividade e da rentabilidade e fidelização do cliente. Um estudo comandado por De Neve em call centers da British Telecom, no Reino Unido, merece atenção. Foram acompanhados trabalhadores de 11 centros de atendimento por 6 meses, usando um instrumento de pesquisa semanal da felicidade posteriormente vinculado aos relatórios de performance. Quanto maior o bem-estar do trabalhador, maior foi sua eficiência no número de chamadas por hora e a conversão dessas chamadas em vendas.

Embora o bem-estar humano por si só justifique o compromisso das organizações com a construção de culturas saudáveis e positivas, sabe-se que no mundo dos negócios esse não é o vetor. Dessa forma, informações econômicas devem sustentar a argumentação daqueles que desejam promover ações com foco na felicidade ? seja pela redução nos custos com alta rotatividade e afastamento do trabalho por adoecimento psíquico, seja com o incremento na performance. Ou seja: se queremos trabalhar com felicidade, precisamos entender muito bem de economia.



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